Você já sentiu pena de si mesma? Eu sim, confesso. Sinto que esta é uma forma de eu “me colocar no colo”, de me acolher nos momentos de dor. Quando sinto pena de mim, me entendo nas minhas fragilidades, enxergo meus problemas, minhas necessidades de amor, liberdade, aceitação e reconhecimento. Me vejo humana e fraca. Me dou a dimensão humilde de não poder tudo, não ter controle e não conseguir tudo o que quero.

Choro, sim, choro tudo o que tenho pra chorar e quando os olhos, já inchados, não tem mais lágrima para chorar ou a exaustão me impede de continuar, adormeço. Quando acordo, ah!, mais cedo ou mais tarde a gente sempre acorda, me dou conta que tem algo a mais aqui em toda essa pena. Olho pra ela e sei que é também um mecanismo de auto sabotagem. Posso colocar no que está fora de mim todo o poder de afetar minha vida. Eu não transformo. Sou apenas reação.

E se o poder não está em mim, não há nada o que fazer. Não há nada a mudar. Posso justificar minhas atitudes pelo outro, pelo ambiente, pelos fatos que me afetam. Me fragilizo ainda mais e me entrego ao papel de coadjuvante na história da minha vida.

Enquanto sinto pena de mim sou a criança que chora no cantinho da sala com a esperança de um salvador ou uma salvadora. Quantos salvadores esperamos nesta vida! Um pai ou uma mãe, um novo trabalho, uma outra oportunidade, um amor ou uma viagem que nos tire da realidade.

Um dia eu acordo e preciso assumir a mãe habita em mim. Mãe de mim. De cuidar de minha vida como protagonista e responsável por meus atos e decisões. O amor que espero é aquele que eu mesma deveria me oferecer. Aceitar a imperfeição do outro como espelho da minha própria imperfeição. Aceitar a viagem interna que resgata o herói que me habita.

Se sou capaz de sentir pena e me colocar no colo, sou capaz de segurar na mão e levantar do cantinho em que me coloquei. Usar da água que rola nos olhos para me fazer fluir na vida. Calar um pouco tanto pensamento acusador, a culpa que corrói e seguir em frente. Um passo de cada vez, um dia de cada vez.

A pena nos resgata a humanidade e nossa própria humanidade precisa nos resgatar desse penar. A vida não precisa valer a pena. A vida precisa valer nossas ações, nossa coragem de ser andarilho em nossos caminhos, de nossas escolhas.

Temos pernas para seguir, braços para criar, sentir, dar forma ao sonho. Agir. Olhos para escolher como queremos ver a vida que se apresenta. Cérebro para pensar e entrar em harmonia com o pulsar do coração que nos habita. Boca para motivar com boas palavras, os outros, sim, mas primeiro a nós mesmas.

E assim realizo meu auto-resgate. Se cair outra vez, está tudo certo! Como diz uma amiga querida, somos o céu e não as nuvens. Vai ter dia de sol e dia de tempestades. Tudo passa. Eu permaneço e sigo meu caminhar.