Sou de uma época em que se escolhia a profissão por volta dos 17 anos, com o peso da responsabilidade de fazer isso pelo resto de vida. Então a gente escolhia olhando para o que os pais já estavam fazendo para ter alguma segurança na decisão. Isso não funcionou bem comigo. Primeiro porque escolhi algo completamente diferente dos meus pais e segundo porque mudei de carreira uns 10 anos depois.
Aos 17, olhei para o que eu gostava na escola. Ia muito bem em História, amava escrever, mas achava bem chato a gramática. Ok, esqueci dessa parte e escolhi fazer Jornalismo. Eu não sabia nada da vida de um escritor então Jornalismo fazia mais sentido. Montei minha primeira empresa bem cedo, ainda na faculdade e fiz o que toda a geração X fazia: trabalhei, trabalhei muito.
Passada uma década, bateu na porta um tal de “relógio biológico” e eu queria ter meus filhos, organizar a vida com alguns bens que me diziam que estava no caminho certo: carro, casa própria. Era assim que minha geração pensava. Era a época que se achava bacana ser workaholic. Meu negócio tinha clientes fiéis, mas eu não me via solidificando muita coisa. Fechei as portas e entrei no mundo corporativo. Férias, décimo terceiro, licença maternidade, minhas preocupações como empreendedora agora seriam presentes bem-vindos.
Segui meu modus operandi “workaholic geração X de ser”. Dois MBAs, dois filhos, muitas viagens e mudanças de residências, umas 8 áreas de trabalho depois e eu chego na fase do propósito. Sim, hoje habitamos uma época que é preciso fazer algo com sentido, com motivo. Me sinto desenhando uma terceira carreira. Já fui empreendedora de escritório físico e funcionários de carteira assinada. Já fui colaboradora no mundo corporativo com as competições e políticas internas. Qual será minha próxima carreira?
E me pergunto: como assim o que serei? Porque não me aquieto por aqui? Já construí tanta coisa…, mas tenho um bichinho interno que me pede para ir além. Eu chamo esse bichinho de “Coelho branco”. Sim, o mesmo coelho da história de Alice no País das Maravilhas. Ele aparece na história (e na minha vida) falando “Ai, ai, ai, vou chegar atrasado demais!”. Atrasado para que? Meu coração responde: atrasado para viver tudo o que eu quero viver nessa vida.
Eu fiz uma carreira em Y no corporativo. Isso significa que em vez de crescer em cargos fui buscando me especializar em visão de cliente no marketing de relacionamento. Atuei em 8 áreas diferentes ao longo de 10 anos e isso me alimentava na vontade de aprender sempre mais. Tenho grande satisfação quando sinto que estou contribuindo com esses conhecimentos.
Quando penso numa terceira carreira, me ocorre mais um estilo de viver que uma área de atuação. Tenho um bocado de coisas a aprender e isso vai me impulsionar sempre, porém cresce um sentimento de autonomia, de ampliar territórios. Ainda estou navegando nessa investigação. Me permito a dúvida, a introspecção, a observação, o compartilhar de aprendizados e das emoções. Se me exponho, uso de uma ousadia que me é genuína. A mesma que me ajudou a seguir em frente em muitos períodos da minha vida. Sou uma pessoa do meu tempo. E esse é um tempo de autoconhecimento.
Já não me satisfaz o modus workaholic, porém se trabalho com prazer, esse trabalho permeia minha vida. Sonho com meus projetos e crio em horários diversos, sem carga horária definida. Essa coisa de trabalhar 10h por dia e final de semana de ócio me parece uma perda de tempo tão grande quanto virar a noite atendendo vontades alheias. Tenho projetos dentro do corporativo que me engajam independente de uma carteira assinada e tenho trabalhos autônomos que me motivam e me habitam de igual forma. Tem mais a ver com o sentido que encontro nesses trabalhos.
Ao mesmo tempo, tem horas que preciso parar tudo e cuidar da minha saúde. Então preciso de uma vida que me permita colocar caminhadas na rotina, fazer uma fisioterapia quando necessário, incluir uma meditação pela manhã. Isso significa que não rola mais trabalhar 14h e passar noites acordada. Tenho filhos e não quero estar com eles apenas algumas horas no final de semana. Quero trabalhar sem culpa porque consigo equilibrar os momentos no novo modus operandi “engajada nos meus projetos de vida”.
A carreira já não é algo apartado da minha vida e nem concorre com ela. Preciso viver enquanto trabalho e trabalhar enquanto vivo. Não rola viver somente quando eu estiver aposentada. Nem sei se um dia vou me aposentar. Aos 60 devo estar na minha quarta ou quinta carreira. O estilo de vida muda e o trabalho precisa acompanhar. Se me perguntarem o que estarei fazendo daqui a 10 anos eu diria: provavelmente algo que ainda não existe, mas que faz todo sentido pra minha vida.