Meu ano inicia com uma bela e rápida visita ao Uruguai. Tão bom poder explorar lugares, andar por aí e estar disponível para o que se apresenta. Fiz minhas pesquisas antes de partir, claro. Viajar com crianças pede certo planejamento. Ainda assim, me permito olhar com curiosidade o entorno. Foi assim que conheci a livraria Puro Verso, no centro de Montevideo.

Paredes forradas de livros, este é meu parque de diversões. Me perco olhando capas, lendo, tocando, sentindo as informações me puxarem para conversar. E nesse passeio gostoso encontrei Las cinco invitaciones, de Frank Ostaseski. Logo abaixo do título uma frase que traduzo aqui: Descubra o que a morte pode nos ensinar sobre a vida plena.

Hum, cinco convites, interessante. Fui dar uma olhada na orelha do livro e eles se apresentaram:

1.No esperes.

2.Acepta todo, no rechaces nada.

3.Pon todo tu ser en la experiencia.

4.Busca un lugar de reposo en medio a la agitación.

5.Cultiva una mentalidad de no saber.

Adorei os convites! Ainda não li o livro, mas fiquei aqui cheia de ideias a respeito.

A gente passa a vida esperando coisas. Farei aquela viagem quando tiver comprado meu carro. Aí compro o carro e espero até que tenha dado a entrada numa casa própria. Aí vem os filhos e as prestações da casa e a viagem fica para quando chegar (se chegar!) na terceira idade. A gente espera iniciar um negócio até que tenha feito todos os cursos. Espera se candidatar a uma vaga no emprego dos sonhos até que esteja com toda a experiência necessária. Espera ter aquele relacionamento desejado até que encontre o cara perfeito. A morte me ensina a não esperar.

A vida não é perfeita. Tem dias bons e ruins. Os dias bons trazem boas lembranças. Os ruins acumulam vozinhas internas que nos cobram: “viu no que deu? Se tivesse falado… Se tivesse feito aquilo…Se não tivesse se metido em encrenca…” E a gente vai se chicoteando na culpa.  Ou então fica se sentindo a pior das vítimas: “Porque não me reconhecem? Porque não me ajudam mais? Porque esta crise não passa? Esse trânsito, esse calor, essa agenda infernal…”. Se parássemos de remoer tantas culpas e tanta tristeza pelo mundo lá fora, talvez poderíamos aceitar como são, como somos e seguir em frente mais leves. A morte me ensina a ser mais resiliente.

Estar mais presente, atenta ao que se passa bem diante de mim. Atenta aos pequenos sinais que me avisam de cuidar da saúde, de comer o que me faz bem, de curtir com os amigos e a família em vez de correr atrás de minhas ansiedades. A vida é rica em detalhes! Um presente para os sentidos! Pessoas interessantes, lugares interessantes. Às vezes ficamos presos dentro de um relógio que nos põe em piloto-automático e nem percebemos se fechamos a porta de casa, se demos “Bom dia!”, se olhamos para a pessoa que nos atendeu no supermercado. E no piloto-automático a vida passa voando. A morte me ensina a aproveitar o momento presente.

Adoro minha casa, meu silêncio, meus espaços. Meu trabalho me coloca em contato com muitas pessoas, uma rotina bem agitada. Sou mãe, então tenho um terceiro turno de brincadeiras, janta, banhos e histórias para dormir. Preciso de momentos de auto resgate. A meditação ao acordar. Fugir para uma leitura ao sol no intervalo do almoço. Tomar uma xícara de chá, lentamente, olhando para o movimento da rua. A morte me ensina a importância de seguir o ritmo do dia, do meu corpo, da minha energia e a me recolher sempre que preciso.

Por fim, olho para minha história. A cada mudança que enfrento, percebo o quanto ainda não sei e, por isso mesmo, o quão maravilhoso é poder explorar esse novo. A gente tem novidade a vida inteira e vai perdendo o brilho no olho por achar que já se sabe muito. Que engano! Nem o cérebro acumula tanto.

Cada etapa da vida da gente é um novo que se apresenta. Cada novo projeto, cada novo rumo que tomamos, novo ano, inteirinho pra gente viver de uma forma totalmente nova. Como diz o pensamento de Heráclito: “Nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros”. A morte me ensina que a vida é muito mais rica quando assumo que não sei tudo e me permito a curiosidade de viver cada coisa com o sentimento de primeira vez. Quem assim seja!