A médica olha para meus exames, levanta o rosto e diz: minha querida, você precisa reduzir o estresse. Parece simples, mas para minha rotina hoje seria como se ela dissesse: “Você precisa mudar para a Lua”. Meu remédio não se compra na farmácia. Precisa mudar a forma de viver e encarar as situações do dia-a-dia. Precisa levar a vida mais leve.
A conversa acima foi há mais ou menos uns dois meses. De lá pra cá tento me dedicar ao trabalho só em horário comercial e acalmar o coração com a lista de e-mails não lidos e demandas que se acumulam todos os dias. Acordo mais cedo para alongar o corpo e meditar. Tento segurar a ansiedade que invade os pensamentos quando deveria prestar a atenção só na respiração. Dormir significa deixar que o dia acabe, mesmo que você queira um pouco mais de tempo para fazer o que ficou faltando e sentir que está dando conta de tudo.
Decidir é sempre um ato de ousadia, porque pede que a gente mude e mudar significa abrir mão de algumas coisas para dar espaço para esse novo que quer chegar. É desprender-se da segurança de saber onde se está pisando. O novo é um vazio que você ainda não sabe bem onde te leva. É caminhar sem saber se há chão embaixo dos pés. É preciso persistência para retomar o que foi decidido quando você volta para o “piloto-automático”. Você inicia acertando o passo, erra e volta para o começo, feito jogo de videogame. Pelo menos já sabe por onde começar.
É engraçado como muitos amigos acham que sou uma pessoa tranquila e resiliente. E fico pensando como uma pessoa assim pode ter sua saúde afetada pelo estresse. Talvez essa tranquilidade aparente estava apenas acumulando energia e preocupações internas. A resiliência talvez tenha seus limites. Você vai administrando os problemas com serenidade, mas precisa de períodos de paz para desaguar, voltar para o prumo mesmo que pareça não ter saído dele.
Estou aqui buscando sair do furacão e seguir ventos mais leves. Onde será que mora essa leveza? Vou encontrando algumas respostas no caminho. A primeira: mora no agora. Viver um dia de cada vez. Eu que sou uma mulher de planos, de pensar sempre dois passos à frente, me vejo tentando não olhar assim tão adiante. Acolher o que tenho no hoje e fazer o que posso. Às vezes dá certo, outras não. Rezo à noite para agradecer o que foi bom e confiar que cheguem as soluções ainda não encontradas.
A segunda resposta: a leveza mora no simples. Preciso de concentração? Música. Espairecer? Vou dar uma volta. Preciso de amor? Busco o abraço. O problema está aqui? Vamos repartir ele em partes e fazer o que dá para fazer. Não encontro solução? Espero, penso, busco algo mais simples. Não quero jogos de poder, nem vaidades, nem meias verdades. Quero fazer o bem para o outro e, para isso, preciso começar por mim. Simples assim.
Ainda me sinto uma aprendiz das levezas da vida. A palavra me ajuda a colocar os pensamentos numa certa coerência interna. A relação é sempre um desafio, porque te coloca em contato com pessoas que estão em frequências diferentes da sua. Tem a turma animada que traz a leveza consigo. Isso ajuda seu dia a ser mais produtivo. E tem a turma que consome sua energia, que ocupa e desvia sua atenção ou tem valores tão diferentes dos seus que faz você se perguntar como é que foi parar aqui.

Não dá para perder a fé no ser humano, mas dá para dar uma selecionada. Vida leve pode ser uma questão de escolha. Quem escolho ser, com quem escolho estar e o que escolho deixar entrar e ficar na minha história.