Final de ano tem um gostinho de encerramento para mim. Encerrar projetos no trabalho, finalizar cursos, fechar a casa e voltar para família, num processo de renovação de energias e de recarregar as baterias. É também um momento agitado de comprar presentes, planejar férias, celebrar com os colegas.

Sinto uma ansiedade no ar e quero me desprender dela. Tenho vontade de me colocar em recolhimento para refletir sobre o ano que passou. Tem coisas bacanas para comemorar e tem aprendizados que só numa posição de afastamento, olhando de longe, é que ficam mais claros para mim.

Ontem aproveitei o barulhinho confortável da chuva lá fora e peguei uma prancheta com canetas coloridas. Vamos lá, vamos listar tudo o que aconteceu este ano. Fiquei parada frente a folha em branco. Por onde eu começo? Nem lembro o que eu almocei na semana passada, será que vou lembrar de janeiro?

Tenho um caderno que gosto de escrever algumas reflexões. Fui olhar os registros do início do ano. Fiquei surpresa de encontrar incômodos que persistiram no decorrer dos meses e me encontram ainda hoje. Porque existem assuntos que simplesmente não conseguimos resolver?

Confesso que me desanima um pouco olhar para eles. Nem tudo é uma questão de dias. Às vezes precisamos de mais tempo, anos até. Me ocorre agora que não fiquei simplesmente parada, reclamando. Fui fazendo minhas tentativas, fui avançando. Não está resolvido, mas evoluiu e isso me traz certo sossego no coração.

A saúde foi um desses assuntos não resolvidos, mas já evoluído. O percurso deste ano trouxe um vai e vém de exames e médicos e eu, ora disciplinada, ora caindo no meu padrão de descuidos, levanto e persisto na busca de mais qualidade de vida. E por falar em vida, percebo que ela não é linear. Avançamos, retrocedemos, paramos e nos recolhemos para o repouso ou a reconexão e temos ainda os momentos que damos saltos de realização.

Fazer o exercício das crônicas aos domingos foi um ponto importante nesta caminhada. Toda semana um olhar para o que pude aprender, para esta vida que vai nos servindo de delicadezas, surpresas e lições no dia-a-dia. Este assunto deixa meu coração em festa. Se nem tudo foi bacana neste ano, escrever foi muito especial. Um verdadeiro ato de conexão com o humano, com a possibilidade de ir além do desafio, do limite. Com aquilo que nos diferencia de outras espécies, que é poder observar, refletir e aprender.

Aos poucos vou recordando de cada mês. Percebo que estou mais presente nos meus dias, um pouco mais dona dos meus passos. Já vivi momentos em que me sentia sendo levada pelos acontecimentos, sem muita decisão do que de fato eu queria fazer. Hoje sei mais o que me faz feliz e o que quero fazer e, se ainda não o faço, é por alguns medos que ainda preciso tratar.

Semana passada assisti uma palestra online que falava que os medos precisam ser acolhidos e compreendidos pela gente. Eles querem proteger algo que damos valor. Olhar para este algo, entender o que está pedindo este medo, é um grande passo para sair da paralisia que ele nos coloca e ir além. Eis mais uma coisa que aprendo neste ano.

Sabendo disso, consigo ver onde o medo se fez presente nos meus dias. Ele quis preservar a segurança, a liberdade e as relações que me são valorosas. Como vou preservar estas coisas e ainda assim seguir em frente? Bem, a resposta vai render bons planos para o ano novo!