Gabriel deitou na caixa de areia do parquinho. Adivinha? A areia agora habita o sofá e o chão da minha sala. Daniel disse que é um DCA, Detetive do Colégio Azul. Lupa, peças de xadrez, máquina fotográfica e diário de investigações rolando pelo quarto. Minha casa é um portal para um mundo imaginável que só a infância consegue proporcionar.

Para participar desse mundo há que se ter um pouco de paciência e outro tanto de desprendimento. Paciência porque as vontades são muitas, as brincadeiras de lutas podem virar brigas a qualquer momento e a sua energia nem sempre está no mesmo nível da energia dos pequenos. Desprendimento porque sua casa vai estar 90% do tempo uma zona.

Dias atrás cheguei em casa cheia de vontade de me atirar no sofá. Sabe aqueles dias que você entra no seu carro, no estacionamento da empresa e deseja fortemente que exista tele transporte? Você dirige tentando não receber uma multa por excesso de velocidade, sobe o elevador do seu prédio contando os segundos, abre a porta de sua casa e… bem, se você é pai ou mãe deve estar imaginando a visão que tive.

Pokémons fazendo uma festa pelo corredor, pokebolas explodindo pelo chão, pecinhas de madeira formando castelos ou pistas de corrida nos últimos espaços possíveis para caminhar. Dois guerreiros ninjas aparecem quase que instantaneamente e se jogam sobre você. Vem mãe, vem mãe! Qual Pokémon você quer ser? Eu respondo: pode ser um que fica adormecido?

Queria uma varinha mágica para fazer a louça lavar-se sozinha enquanto as roupas do varal formam fila para descansar dobradinhas nos armários. Colocar uma música que pare o tempo por alguns instantes enquanto danço com meus meninos na sala. Panelas façam magicamente a comida na cozinha e todos estejam dormindo, felizes, de banho tomado e bem alimentados até às 22h. Inclusive eu!

Ok, não tenho uma varinha mágica. A vida é dura e nem sempre estamos felizes. Mas podemos escolher como queremos viver e a energia que queremos colocar no lugar em que habitamos. Este final de semana deixei todos os dragões do lado de fora da porta e um cartão pendurado dizendo, fechado para balanço.

Então coloquei uma música e dancei com os meninos na cozinha enquanto preparava o jantar. Puxei uma vassoura mágica e disse que precisavam juntar os brinquedos do chão antes de dormir senão ela varreria tudo o que estivesse pelo caminho. E contei, como de costume, com a parceria de um mágico de verdade, meu marido, que divide as tarefas do banho, da janta e dos preparos para dormir, com maestria.

Na meia-luz de um “dinossauro abajour”, encerramos a noite com uma história que nos transporta em aventuras até o mundo dos sonhos. Quem disse que a vida não pode ter um pouco de magia? Tudo depende da forma como você vê, da energia que põe e da sua auto permissão para ser feliz. Sim, minha casa é um mundo à parte. É um lugar onde me desmonto, junto meus pedaços e me reconecto.

Minha casa é uma zona! Uma zona de conforto, onde os combates não perduram, onde o respeito e o amor devem sempre prevalecer e onde os habitantes encontram o calor de um abraço e um cantinho para chamar de seu.