Pronta, estou aqui. Perdida. Sem celular, esquecido no táxi. Dentro da Pinacoteca de São Paulo. Pedi ajuda e me deixaram usar um telefone. Tentei ligar. Está no silencioso, não atendeu. Não lembro direito do meu número. Peguei um pedaço de papel para escrever. Veio a lembrança. Ligo outra vez e nada. Resolvo levar adiante o passeio.
A primeira obra que vejo é de Iberê Camargo, Porto Alegre, de onde eu vim. Para amenizar a sensação de perdida, eu acho. Fico pensando que já vivi outras vezes essa sensação e tudo bem, consegui me virar.


Compro lápis e bloco na lojinha. Escrever me traz conforto. Não conseguirei fotografar. Usei um pouco de dinheiro. Preciso guardar o restante para o trem. Meu Deus, o trem! Não lembro a indicação que o Juan me deu para voltar. Ficou no celular. Linha Rubi em direção a algo com o nome de Francisco, parando na estação que tem o nome do meu bairro. Acho que dá para me virar. Não sei o número dele, mas sei o da minha mãe. Ela sabe o caminho, qualquer coisa peço para uma boa alma me ajudar.

Pareço estar num limbo das minhas memórias. Preciso acalmar os pensamentos. Preciso me distrair. Sento um pouco para olhar as obras. No quadro à minha frente um homem me olha de lado. Parece um olhar acusador. A culpa. Muita distração. Eu ia para um chá de fraldas. Ainda estou com o presente nas mãos. Descobri, no caminho, que me enganei de data. Desvio de rota. Vamos curtir um pouco de arte. Fiquei empolgada. Esqueci o celular. Será punição por tanta falta de atenção? Não quero esse olhar acusador.

Sinto uma leve vontade de chorar, mas a razão me diz que posso ter outro olhar. Viver o momento de forma diferente. Não posso? Respiro fundo. Vamos seguir em frente. Não se trata do que está fora. Na tela. Se trata do que está dentro de mim. Vejo a imagem de uma mulher com braços erguidos. Minhas memórias me levam ao conforto da minha cama. Na pintura, uma garça ao lado de olhos abertos, outra de olhos fechados. Este tem sido meu sono em algumas noites. Meio em vigília, meio em descanso.

Mais uma obra. Título: Antes que eu me esqueça. Um boneco branco voltado para o espelho. Antes que eu me esqueça de voltar para onde eu vim. Antes que eu me esqueça de mim. Ironia conversando comigo em plena Pinacoteca.

Outro quadro. Três mulheres, de costas, segurando guarda-chuvas abertos, olhando para barcos no mar. Lembro das discussões da semana pelo whatsapp. Alguém falou algo do grupo de mães que era confidencial para a diretora da escola. As mães delatadas estavam furiosas e suspeitando de todo mundo. Fui a última a ser incluída no grupo. Senti que era alvo das suspeitas. Não me conhecem. Fosse eu, saberiam por mim. Não fui. Fiquei com vontade de sair do grupo, mas seria uma declaração de culpa. Uma culpa que não tenho. Acolho as minhas. Esta, não me pertence. Vamos em frente.

Por um momento fico pensando. Por que estas coisas acontecem comigo? Foi distração minha. Estou feliz de aproveitar o tempo para estar num lugar que desejei visitar ao longo da semana. No entanto, não consigo relaxar sabendo que estou sem celular. Nem quero pensar nas implicações disto. Minhas informações, aplicativos abertos. Minha viagem na segunda-feira. No momento, estou perdida no horário. Pergunto para um estranho. 17h05.
Melhor ir embora antes de escurecer. Hora de seguir em frente. O tempo não volta atrás. Isto é um sinal. Ficar parada pensando no que já passou é desnecessário. Perda de tempo e de energia. No fim de tudo, só há um sentido para seguir: em frente. Mesmo que eu resolva voltar em alguma decisão, ou relação, ou voltar para um espaço em que eu já estive. Ainda assim será seguir em frente.

Ligo novamente. Celular emprestado de alguém que se compadece da minha história. O taxista atende. Está longe. Vai levar mais uns 45 minutos para chegar. Eu aceito. Resolvo passar o tempo no próximo andar. Agora estou com outro olhar. Há um alívio interno. Uma gratidão pelas pessoas que ao longo do passeio me ajudaram sem me conhecer.

Vejo mais cores. Vejo uma pintura de mulher curtindo a presença das filhas num parque. Outra curtindo sua casa, regando as plantas no jardim. Na seguinte, uma cena de amigas conversando. Me identifico um pouco com cada uma. Como se houvessem muitos quadros dentro de mim. Dias de Sol, diz o título. Lembro da minha manhã e de um surpreendente sol que encontrou espaço no céu nublado. Eu caminhando pelo condomínio com meus meninos. Curtindo o sol.

O sol agora se esconde. Já é tarde. Vou para fora da Pinacoteca, na esperança de encontrar o taxista e meu celular. Poderia voltar de trem, mas perderia meu celular. Prefiro pagar o preço. No final, tudo se resolveu bem e o passeio rendeu um texto e boas reflexões.