“Você tem medo da morte?”, me pergunta uma amiga querida.
“Não”, respondo prontamente, “Tenho medo de não aproveitar bem minha vida. Ela é cheia de possibilidades, de oportunidades e eu quero viver todas elas bem.” Ao escutar minhas palavras meu coração me diz para fazer uma coisa de cada vez. Para ir com calma, baixar o ritmo. Parece contradição nesse tanto de querer que me habita.
Como vou administrar isso tudo? Abro uma porta e vou chamando as oportunidades para entrarem e sentarem confortavelmente na minha sala de estar imaginária. Vai entrando uma viagem com a família, uma edição de um livro, um curso de filosofia, outro de canto, uma atualização profissional, um blog e assim por diante. Vou olhando uma a uma com curiosidade.
O que me impede de fazer tudo o que quero? Tempo e dinheiro seria uma resposta superficial. Indo além da superfície, diria que o que me impede é minha dificuldade de escolher. Escolher significa fazer uma coisa e abrir mão de outra coisa. Escolher significa optar por um caminho.
Talvez eu tenha receio de ir pelo caminho errado. Vai saber. E o que de pior pode acontecer se eu escolher o caminho errado? Encontro aqui outro medo. Medo de prejudicar pessoas queridas que me acompanham na vida. Medo de perder tempo fazendo algo que não seja relevante. Não falo da expectativa alheia. Falo das minhas próprias expectativas e do que eu quero proporcionar para mim e para os meus filhos.
O silêncio entra nessa minha sala imaginária para me ajudar nas escolhas. Ele é um amigo tranquilo que me dá ouvidos e deixa fluir meus pensamentos. Ficar quietinha acalma a confusão mental que os estados de agitação e ansiedade trazem no dia-a-dia.
O silêncio é um bom personal trainer. É preciso disciplina para não sair por aí querendo dar opinião sobre tudo. Se estou cheia de opinião não me permito olhar para as oportunidades com a abertura necessária para entender a importância de cada uma. É preciso prática para permitir o aprofundamento da reflexão, a escolha conectada com o que é valoroso para mim.
A sala está lotada. Mal posso respirar. Sei que não vou conseguir dar uma boa atenção a todas as oportunidades que estão ali. Vejo certa agitação no ambiente e não sei se são elas que me apressam ou sou eu mesma que me pressiono a tomar decisão. Os tempos de transição e espera me deixam impaciente. Gosto de decidir e seguir em frente.
Lembro de um curso de Humberto Maturana, em que ele dizia que mais importante do que saber o que mudar é saber o que queremos preservar. O que eu quero preservar? Percebo que tem um estilo de vida que busco e que quero preservar. As oportunidades serão acessadas se puderem se conectar com este estilo de vida. Tempo para o que é importante. Dinheiro o suficiente para ter liberdade de escolha. Menos é mais!
Vou convidando cada oportunidade para encontrar seu espaço na minha casa. Algumas combino de me visitar só nas férias, outras terão atendimento todas as terças e quintas. E tem aquelas que vão ter que voltar outro ano. Não dá para fazer tudo. O Silêncio levanta sem dizer nada e me deixa um bilhete antes de ir embora: “Te encontrarei todas as manhãs para que não te perca de si mesma e possa seguir conectada com teu coração.”