É Carnaval e eu resolvi entrar no ritmo. No meu ritmo. Todos os meses escolho um tema para me fazer companhia nas reflexões. Gosto de deixar a intuição soprar este tema no meu ouvido. Para fevereiro me ocorreu falar sobre o tempo. Hoje então escolho o meu tempo, este tempo interno que chamo de ritmo.

Quando falo de tempo costumo ligar ele às horas. Me dou conta que estas horas, minutos e segundos foram inventados por nós mesmos. O que havia antes disso? Um sol que nascia e percorria o céu num momento que resolvemos chamar de dia e uma lua, cercada de estrelas, que aparecia ao escurecer e que chamamos de noite. E nessas mudanças diárias nos acostumamos a acordar em um tempo e a dormir em outro.

Então me permito num feriado de Carnaval esquecer um pouco os ponteiros do relógio e sentir o meu tempo. Um tempo interno que há muito deixei de lado. O ritmo que me faz ser quem sou, que pulsa nas batidas do coração e que me impulsiona quando crio e me sinto viva.

Qual será mesmo este meu ritmo interno? Para descobrir preciso olhar para dentro. Estou numa bagunça, confesso! Tipo final de baile de carnaval. Para saber qual é esse ritmo que me habita, terei que reorganizar as coisas por aqui.

Como quando organizo uma gaveta cheia de papéis e objetos que vou jogando para dentro e esquecendo o motivo que me levou a guardá-los. Para organizar vou tirando tudo para fora. Olho para esta bagunça e vou encontrando alguma lógica, separo papéis de objetos, assuntos, cores, enfim, vou redescobrindo o que quero de verdade guardar.

Assim, aproveito meu dia para tirar todos os meus “guardados” internos. Acho que guardei coisas demais. Encontro um excesso de pensamentos, fantasias e máscaras que não quero mais usar. E tem mais um tanto de fazeres que me ditaram as horas por muito tempo. Olho cada um deles. O que ainda faz sentido guardar em mim?

Vamos deixar tudo isso um pouco de lado. Já me consumiram o bastante. Coloco uma música para tocar. Estão todos fora de casa e balanço um pouco o corpo. Vamos deixar entrar um pouco de movimento. Vou descobrindo meu ritmo. E ele não é feito de horas. É feito de sentir.

Fome, sede, sono. Vontade de estar com quem gosto. Vontade de não fazer nada. Quero trabalhar um pouco. Porque não ao ar livre? Sento para escrever e sinto o vento brincar com os meus cabelos.

Trabalho com prazer. É mágico sentir o próprio ritmo. Sinto que posso me juntar e me organizar melhor. Observar o que de fato pulsa em mim. Calar tanto pensar e me colocar em movimento. Fluir. Já dizia a marchinha: as águas vão rolar. Deixa rolar.