Parte 7 – Café de memórias

“Seu convite me surpreendeu, Beth”, disse logo ao chegar.
“Oi! Sente-se, por favor. Não posso convidar uma amiga para um café?”
Sim, eu já fora muito próxima de Elisabeth. Éramos um trio animado em outros tempos. Fui embora, dar minhas voltas pelo mundo, ela fechou-se na redação e o rei, bom, ele era o rei. Depois que voltei, virei conselheira e vi que a amizade dos dois havia se perdido. Tenho pra mim que o passado mal resolvido ainda viria à tona.
Elisabeth sempre fora uma mulher de opinião. Crescera questionando a monarquia e os direitos adquiridos. Felipe, na época um príncipe, gostava dessa força infinita que a cercava, como se nada a pudesse atingir. Suas críticas eram as brigas que ele nunca comprara com o pai, o velho rei. E eu, no trio, era a artista. Trazia para eles um espaço em que tudo era possível, se desejado e construído com um pouco de imaginação e outro tanto de dedicação.
Naquela época não havia La Razón para dizer o que seria da nossa vida. Essa liberdade toda, no entanto, era encarada de forma muito diferente por nós três. Beth era a terceira filha de comerciantes. Os dois irmãos mais velhos carregavam a responsabilidade de seguir com o negócio da família. Ela era a preferida do pai. Para impressionar, tinha uma postura valente. Desde pequena enfrentava a todos com suas ideias e opiniões. A cada discussão vencida, crescia sua confiança e o reconhecimento do pai lhe dava ainda mais energia.
Felipe era o filho mais velho e o primeiro na sucessão ao trono. Estava longe de ser o protegido. Seu pai achava que deveria submetê-lo a todo tipo de prova e pressão para se tornar um homem destemido. Nada estava bom o bastante. O reconhecimento era para os fracos, pensava o velho rei, e o efeito no príncipe era o contrário: um menino inseguro, reservado e triste.
Eu era uma das filhas de um artista patrocinado pelo rei. A única que seguia os passos do pai e queria pintar, escrever, esculpir e o que mais viesse pela frente. Felipe tinha aulas às escondidas com meu pai. Era de fato criativo, mas o rei não era favorável a veia artística do menino. E Beth posava para algumas telas e pintava seus protestos em outros espaços não muito recomendados. Assim, nós, três jovens sonhadores, nos encontramos amigos nessa história.

Há terrenos mais férteis para o despertar dos talentos. Alguns crescem quando reconhecidos e estimulados, outros pelo ambiente de fácil acesso. Há ainda os talentos que vão sendo enterrados em grossas camadas de críticas, crenças e baixa autoestima. Estes precisam de um certo esforço para poderem novamente emergir.

“Você podia colocar algum juízo na cabeça do rei.”
“Beth, você mesma poderia fazer isso. Quando vai contar para ele o que aconteceu?”
“Isso não mudaria nada. O poder subiu-lhe à cabeça! Ele pensa que é Deus. Onde já se viu, ditar o que as pessoas farão de suas vidas! Cada um deveria poder escolher por si mesmo. Não era assim que nós mesmos fazíamos?”
“Sou a primeira a defender a liberdade de escolha, Beth, mas entendo essa necessidade de controle do rei. De nós três, ele sempre foi o mais inseguro. O controle traz a sensação de segurança. E o poder? Bom, o poder pode ser usado e apreciado de muitas maneiras, não é mesmo? Para ele é o reconhecimento que nunca teve dos pais. Há uma carência de sentir-se querido, amado, respeitado. Para você, o poder é fazer-se ouvida, é o enfrentamento acima de qualquer coisa. O prevalecer de sua opinião.”
Neste momento eu avançava sobre areia movediça. Dissera mais em um minuto do que em muitos anos de afastamento. Beth era uma mulher forte, mas ouvir certas verdades a fragilizava e a “garotinha do papai” surgia novamente na minha frente, com cara de esfinge. Na certa buscando argumento que pudesse contrapor minhas afirmações.

Quando enfrentamos uma dificuldade e vencemos, geramos internamente um movimento positivo de autoconfiança e estamos prontos para novos desafios. Quando falhamos, nos sentimos inseguros e a tendência é a retração, o vitimismo ou uma autocrítica pouco construtiva. Reconexão com a história de vida, valores internos e pequenos passos de realização podem gerar a confiança necessária para seguir em frente.


Beth sorri e olha para a xícara de café entre as mãos.
“Você é uma das poucas pessoas que consegue me deixar sem argumentos.”
Noto que volto a respirar. Sem perceber, havia prendido a respiração esperando uma explosão furiosa de tempos atrás. Estamos ambas mais velhas e a maturidade traz certa diplomacia. Peço uma xícara de chá.
“Você certamente sabe da história de Pedro, o rapaz sem talentos”, começa ela.
“Sim, estive com ele. Na verdade, me parece um rapaz bem autoconfiante e um verdadeiro explorador de talentos.”
“E o rei o mantém detido no castelo. Sabe o que planeja fazer com ele?”
“Digamos que Pedro é seu convidado. Conhecemos bem o rei. Felipe sempre foi criativo. Vai pensar em algo inusitado sobre toda esta situação.”
“Ouvi dizer que fará um baile. Isso não é nada inusitado ou criativo, mas não vim aqui para falar do rei. Quero lhe fazer um pedido, em nome dos nossos velhos tempos. Quero que me consiga uma entrevista com o tal Pedro.”
“Bem sabes que não posso conseguir tal entrevista. Nem em nome dos velhos tempos. Talvez uma sugestão, daquelas que negarei a fonte se for questionada.”
“E que sugestão seria?”
“Pergunte sobre El Core para uma cientista chamada Luiza.”