Parte 8 – Muito além de um código genético

A porta tinha sido liberada.
Elisabeth olhou para o casarão muito bem restaurado. Era propriedade da família de Luiza, filha de cientistas renomados. O casarão, transformado num centro de pesquisas. Recepcionada por uma assistente, foi direcionada para uma sala de reuniões em que seria feita a entrevista. Encontrou um ambiente bem iluminado.
Tudo muito limpo e sem personalidade. Preciso criar certa intimidade com esta jovem ou esta entrevista será superficial, pensou a jornalista.
“Boa tarde, é um prazer receber a diretora do Notícias! Nem acreditei quando disseram que seria a senhora a conduzir a entrevista”, Luiza estendeu a mão para cumprimentar Elisabeth.
“Muito prazer, Luiza! Pode me chamar só de Beth. Você tem uma pesquisa importante e fiz questão de vir pessoalmente falar contigo.”
“Sente-se, por favor. Fique à vontade, Beth. No seu email, perguntou sobre El Core? Onde conseguiu esta informação? Ainda estou escrevendo um artigo sobre o assunto”, Luiza parecia preocupada.
“Minha querida, você sabe que em Pasárgada nada me passa despercebido. Não posso revelar minhas fontes, mas você é uma cientista talentosa e sinto que há algo importante aqui que merece uma divulgação à altura.”
Vamos ver se alguns elogios fazem ela baixar a guarda e abrir a história toda. Não encontrei nada sobre El Core na internet, porém não receberia tal sugestão se não fosse quente. Luiza estuda há alguns anos sobre talentos, então deve ter alguma relação com Pedro e o rei. Tudo o que eu preciso é jogar algumas perguntas mais abertas. “O que você pode me dizer sobre El Core?”, perguntou Elisabeth de forma cordial, mas firme.
“Digamos que é um novo caminho para entender talentos e habilidades. Aceita um café, Beth?”, Luiza estava se sentindo intimidada pela diretora de redação. Precisava ganhar alguns minutos para se sentir mais confiante.
“Aceito sim, obrigada.” Esta garota quer falar, mas tem algo aí que está emperrando. Vou tentar dar uma blefada: “Soube que o rei está bastante interessado na sua pesquisa e na sua relação com Pedro. Eu posso ajudá-la no assunto.”
“Pedro? Você sabe como ele está?”
Xeque mate! Ela tem algo com o rapaz e está nitidamente preocupada. Por isso o receio de falar comigo.
“Infelizmente, não. Estou tão preocupada quanto você, Luiza, porque ele está já há alguns dias detido no castelo. Eu sei como o assunto é importante e quero ajudar você e o rapaz. Para isso, preciso que fale comigo. Já ouvi muitas coisas. Preferi escutar toda a história de você. E então? O que me diz?”
Luiza suspira: “Tudo bem, talvez você possa ajudar. Vou contar, mas peço que não publique nada ainda. Como se diz, falarei em off, é isso? Eu preciso publicar meu artigo antes.”
“Estou de acordo. Será uma exclusiva, guardada até que você publique seu artigo.”
Luiza serviu-se também de café e contou como conhecera Pedro, há 2 anos. Falou das entrevistas com o rapaz, depois com a família, colegas de trabalho e amigos. Não contou que nesse meio tempo tinha se tornado bem mais que uma pesquisadora para Pedro, mas Beth já estava acostumada a captar as informações nas entrelinhas e usaria a ligação emocional em outro momento.
Ao contrário do que ela imaginava, El Core nada tinha a ver com coração. Vinha da tradução de núcleo ou essência. Era uma tecnologia que reunia mais informações que La Razón para identificar talentos e habilidades. Sua descoberta coloca o ser humano de uma forma mais ampla no centro da questão e mostra que além da genética, outros fatores (comportamentais e culturais) influenciam no desempenho profissional. A cada nova informação, Elisabeth ficava ainda mais interessada. A descoberta poderia acabar com a tirania de Lá Razón.
“Estou um pouco confusa, Luiza. Nesta terra tratamos os talentos como algo que já se nasce. Você está me dizendo que estamos equivocados em acreditar em La Razón?”, perguntou Elisabeth.
“Precisamos ampliar o olhar, Beth. Meus estudos mostram que devemos separar dons de talentos. Temos na história da humanidade algumas pessoas que demostraram dons acima da média, verdadeiros gênios em campos que vão das artes, ciências, esportes entre outros. Aí é comum fazermos confusão achando que talento é a mesma coisa e, assim como os dons, são para poucos.”

Devemos separar dons de talentos. Dom vem do latim e significa “dádiva”, “presente”. É a capacidade de uma pessoa realizar de forma fácil algumas tarefas que são mais difíceis para a maioria das pessoas. Já os talentos são tendências. Eles podem ser identificados e desenvolvidos.

E Luiza continuou contando que El Core pode ser usada em diferentes etapas de vida, trazendo resultados também diferentes. Isso porque os talentos sofrem influência pelo momento que a pessoa está vivendo. Neste caso, o indivíduo tem a chance de escolher desenvolver talentos diferentes na juventude e na maturidade.
“Em todo este processo da minha pesquisa, aprendi a observar tarefas que colocam a pessoa em estado de flow. Aquelas que a gente faz com facilidade e não vê o tempo passar. Aprendi que a infância mostra muitos caminhos se permitirmos que as crianças vivenciem diferentes conhecimentos e experiências de vida”, contou a cientista.
“Você tem noção dos impactos que seu estudo e El Core podem causar em nossa sociedade?”
“Ainda não consegui fazer um mapeamento de impactos. Por enquanto, me preocupa que Pedro seja visto com uma ameaça ao rei.”
“Sim, Luiza. La Razón está sendo questionada. A própria monarquia e seu poder vitalício estão sendo questionados. Já se escuta que outros jovens querem se sentir livres como Pedro para escolherem seus destinos profissionais.”
“Eu sei, mas Pedro não tem culpa disto. Fui eu que convidei ele para esta pesquisa. Me sinto culpada por ele estar preso.”
Ótimo! Sinto que agora posso fazer minha proposta para Luiza. Quero uma matéria que mostre a perseguição do rei.


Notícias de Pasárgada

“Extra! Extra! O rei quer esconder descobertas da ciência e mantém preso o jovem que ousou fugir da tirania de La Razón! Extra! Extra!”
O entregador de jornais lançava alguns exemplares em frente às portas das residências de Pasárgada.
Neste mesmo momento, o jornal era colocado sobre a mesa de café-da-manhã do rei.
“Mas que merda toda é essa!”, o rei estava com o rosto vermelho e os olhos em chamas. “Alguém traga Elisabeth imediatamente até aqui. O que ela está pensando? Passou de todos os limites!”
A algumas quadras de distância do castelo, Elisabeth colocava sua melhor roupa e esperava pela guarda real. “Hoje teremos uma boa conversa!”