Um mergulho para pensar

Conseguia ouvir a própria respiração e sentir o movimento da água no rosto enquanto dava mais uma braçada. Movimentos repetitivos faziam seu universo particular ganhar espaço. Novo impulso na borda da piscina e seguia o percurso conhecido. Ia e vinha tantas vezes que perdia a conta. Parava ao sentir o calor invadir seu corpo depois de tanto movimento. Uma pausa, enfim. Deixar o corpo flutuando, olhos fechados. Os pensamentos tão longe dali.
“Gosto desta ruguinha entre as sobrancelhas. Aparece sempre que você está concentrada.”
Ela sentiu um arrepio na coluna quando Pedro tocou de leve sua testa. Tentou disfarçar. Ele a traduzia tão bem. Às vezes achava que podia ler seus pensamentos. Já estava tão acostumada a encontrar ele na saída do trabalho. Primeiro, as entrevistas, depois alguns encontros para beber ou dançar e então a história começou a ficar mais interessante.
“Sei bem o que você está fazendo, Pedro”, Luiza fingiu uma reprovação. “Eu não deveria misturar trabalho com diversão.”
E Pedro ria com aquele jeito de menino travesso.
Luiza não gostava muito de dançar. Não tinha muita coordenação para isso, mas estava tão leve com algumas doses de Martini que se deixou levar. Se sentia à vontade com aquele garoto sem talentos. Não, não, talvez não tivesse talentos revelados, mas era cheio de habilidades. Luiza ria e sentia o corpo abraçado, o calor do corpo aquecido pelo movimento.
Abriu os olhos. Estava na piscina e quase podia sentir o primeiro beijo na pista de dança. Já fazia tantos dias que não via Pedro. Preso naquele castelo por sua culpa, sua pesquisa. Precisava pensar num jeito de tirá-lo de lá. Elisabeth disse que ajudaria, mas tudo o que conseguiu com aquela matéria sensacionalista foi colocar um bando de jornalistas na porta de sua casa.
Depois de um banho rápido, guardou suas coisas na mochila e foi para a recepção do clube. Precisava sair sem ser vista. Trabalhar um pouco e voltar direto para casa. Ainda tinha esperanças de receber alguma notícia de Pedro.
“Jô, tem alguma outra saída do Clube que não seja aqui na frente?”
Joana olhava atenta as notícias na televisão. Sua amiga de infância aparecia numa gravação que falava de El Core e seu relacionamento com Pedro. Não esperou terminar a reportagem para responder:
“Você está metida numa boa confusão, né, Lu? Tem uma porta nos fundos do barzinho. Eu ligo daqui pro ramal do Zé pedindo pra ele te dar cobertura.”
“Valeu, Jô!” Luiza tinha que concordar com a amiga. Estava se sentindo bem encrencada.

Enquanto isso, no castelo…

“Majestade, os jornalistas estão na sala de audiências aguardando para ouvi-lo conforme solicitado.”
O rei ainda estava com o jornal em mãos, na mesa do café-da-manhã.
A coletiva! Tinha esquecido da coletiva. Elisabeth chegaria a qualquer momento. Tudo ao mesmo tempo, que inferno! Que esperem.
“Peça para o relações públicas levar os jornalistas até o salão de baile e falar qualquer bobagem sobre decoração, cardápio e música. Preciso de pelo menos 1 hora sem ser interrompido na sala de audiências. Quero colocar aquela diretora de escândalos no seu devido lugar!”
O assistente do Rei fora executar sua tarefa.
Joaquim estava bem próximo do trono.
“Ei, ei! O que você está fazendo aí?”
“Nada não!” Joaquim respondeu de forma afetada. “Adoooro esse mobiliário cheio de detalhes do Rei.”
“Já foram todos para o salão de bailes. Logo iniciarão com as informações do evento e você vai perder se ficar xeretando aqui em cima. Vamos!”
Joaquim já conseguira colocar suas escutas. Uma logo abaixo do trono e outra embaixo da grande mesa de reuniões que receberia os jornalistas. Missão cumprida, pegou sua mochila e desceu até o salão. Colocou um pequeno fone no ouvido direito. Precisava fingir certo interesse naquelas bobagens todas sobre o baile.

Elisabeth saiu do carro e foi levada até a sala de audiências. Estava sozinha quando ouviu a porta fechando atrás dela. Sabia que Felipe estaria a sós com ela. Já fazia tanto tempo que não se viam. Ele já tinha sido tão talentoso! As tintas e os pincéis esquecidos. Quanto desperdício. Ao menos se fosse um pouco mais corajoso para enfrentar o velho rei, pai dele. Esse sim, devia estar satisfeito seja lá onde estivesse agora.
“Ora ora, então você se presta a fazer matérias sensacionalistas, Elisabeth! O que pretende com isso?”
Ela sorriu ainda de costas para o rei e sabia que ele estava furioso.
“Eu falei alguma mentira, majestade?”, provocou.
“Você continua tão petulante quanto antes, Elisabeth! A idade deveria ter te trazido alguma compostura.”
“Eu continuo a mesma pessoa que sempre fui. Já você, Felipe, deixou a coroa afundar seu cérebro e perder qualquer senso de justiça. Ora, ora, digo eu! O que pretende mantendo o tal Pedro preso no seu castelo?”
“Pedro não é meu prisioneiro. É meu convidado, Elisabeth! Darei uma festa aqui para marcar os novos tempos. O Baile dos Talentos! A propósito, tem jornalista seu por aqui, um sinal claro de que não sou esse perseguidor que você gosta de me acusar.”
“Você não precisa ser um perseguidor, Felipe. Você controla a todos com sua máquina. La Razón, que contradição! Não tem coisa mais irracional do que tentar dominar a vida das pessoas, através do seu trabalho, do que lhes é permitido ou não aprender. Seguir as regras sem qualquer questionamento. Onde está a razão aqui?”

Não tem coisa mais irracional do que tentar dominar a vida das pessoas, através do seu trabalho, do que lhes é permitido ou não aprender. Seguir as regras sem qualquer questionamento. Onde está a razão aqui?

“Tudo o que faço aqui é para o bem do meu povo. Não controlo suas vidas, apenas trago a orientação e o direcionamento que elas precisam. Você não lembra como éramos perdidos na juventude. Toda aquela liberdade apenas nos dava a ilusão de que poderíamos ser qualquer coisa. Isso não é verdade! Temos nossas responsabilidades e nossas escolhas.”
“Do que você está falando? Responsabilidades e escolhas convivem muito bem com liberdade. Aliás, se somos livres, somos também auto responsáveis. Assumimos nossas escolhas, nossos erros e nossos acertos.”
“Ah, Beth! Pra você é tudo muito simples.”
“Não, Felipe. Nada foi simples para mim. Eu apenas assumo as consequências das minhas escolhas. Já você, fugiu do que queria de verdade porque não quis enfrentar teu pai.”
“Ah, não, essa não! Você fugiu de mim, dos nossos planos, há 20 anos! Não respondia minhas ligações, não me recebia em sua casa. Ignorava qualquer tentativa de contato.”
Elisabeth sabia que não poderia guardar este segredo por mais tempo. Não gostava de histórias mal contadas, de enganos e já vivera demais esse desencontro. Então aproveitou que o tinha ali, sozinho, sem assessores, guardas ou familiares por perto e contou tudo. Contou que recebera um chamado achando ser dele e encontrando na verdade o velho rei, seu pai. Contou da ameaça contra sua vida se não se afastasse do castelo. Contou da perseguição dos guardas e do acidente de moto que a fizera perder o bebê.
Felipe não sabia da gravidez de Elisabeth e do aborto logo nos primeiros meses, por causa do acidente. A família dela resolvera levá-la para a casa dos avós, fora do reino e ficara por alguns meses, sem visitas, protegida de qualquer especulação. E enquanto ela falava tantas memórias, via o rei deixar-se cair sobre o trono com um olhar triste e perdido.
“Porque não me contou…”
Sim, ela sabia que tudo poderia ter sido diferente. Mas ele também mudou depois de algum tempo. Casara, tivera seus próprios filhos. Com a morte da rainha num parto complicado, ela chegou a pensar em contar, mas logo estavam brigando novamente por seus ideais. Viviam em pé de guerra. Suas opiniões eram muito diferentes.
“Beth, não podemos mais viver assim. Eu sempre quis fazer de você a minha rainha.”
“Você algum dia estaria disposto a deixar a coroa por mim?”
E por um instante a paz passou entre eles para se dissipar na pergunta feita.
“Ora, Elisabeth! Você continua uma mulher teimosa que me deixa louco, sabia?! Que proposta mais sem cabimento! Eu não sou um de seus jornalistas que você pede pra tirar o crachá e jogar sobre a mesa. Eu sou o rei! E diferente do que você pensa a meu respeito, eu assumo minhas responsabilidades.”
Uma tristeza tomou o peito de Elisabeth e sua voz saiu fria e disfarçadamente calma:
“Então se não tem mais nada para me dizer, majestade, peço para me retirar.”
O barulho da porta foi o último que Joaquim escutou. Por essa ele não esperava.

Esta história está chegando próxima de seus capítulos finais. Uma fuga está sendo planejada, um reinado que está por um fio e um baile de segredos revelados. Estes e outros acontecimentos estão no livro com lançamento ainda em 2018. Aguarde!