Você se sente útil? Minha ideia de utilidade anda mudando. Se você me perguntasse aos 20 anos se eu me sentia útil eu diria que sim, era muito útil. Isso significava trabalhar muito, usar meu tempo livre para estudar algo voltado para o trabalho, estar pronta para atender aos prazos mais malucos e desenhar planos para fazer crescer meu negócio. Hoje quando trabalho além da conta acho que estou perdendo tempo de vida e poderia fazer algo mais útil.

A palavrinha vem ganhando outro sentido. Não apenas fazer, mas fazer algo que eu considere relevante, algo que me orgulhe e que agregue para outras pessoas. Tem a ver com o “como” e não só com o “que”. Me manter ocupada não é útil se não for relevante e prazeroso. Sim, me divertir com o trabalho me agrega utilidade. Diversão tem sido bem útil para eu dar o meu melhor e para viver bem.

Independente do ponto de vista, é engraçado perceber essa necessidade de se sentir útil, né? Se adoeço, não me sinto útil. Se estou desempregada, não me sinto útil. Se envelheço, me sinto menos útil. Não é uma loucura!? É totalmente cultural. Até quando penso em viver um período sabático, planejo explorar, com calma, outras utilidades do meu ser. Acho que ando me coisificando. Não sou um objeto que se torna obsoleto e pode ser descartado. Sou um ser.

Se penso em ser útil só para mim, sou egoísta. Se penso em ser útil para a humanidade, sou altruísta. E se eu pensar em não ser útil? Vagabundo? Vagabundear significa vagar sem destino. Viver ociosamente. Não faço ideia como seria isso, mas só de pensar fico entediada.

Será que existe algo na minha vida que possa fugir do conceito de utilidade? Algo talvez relacionado ao amor? Pode até ser útil, como cultivar amor próprio para me sentir melhor ou fazer coisas úteis para expressar meu amor por outra pessoa. Mas pode ser apenas um sentir, como um olhar amoroso para os meus filhos. Aquela sensação de encher o coração de alegria ao vê-los felizes. Talvez o sentir possa fugir um pouco dessa tal utilidade. Nos torna menos coisa e mais humano.

Por outro lado, talvez sobrevivemos mais que outras espécies porque nos organizamos e nos construímos em utilidades. Pensa bem, estamos nós lá nas cavernas e percebemos que podemos nos dividir em tarefas. Cada um contribuindo para a sobrevivência em ambientes hostis, buscando comida e cuidando uns dos outros para não virar comida alheia. Já passamos muito deste tempo. Estamos agora mais preocupados em não perder nossa utilidade para novas tecnologias. Vem chegando a era dos robôs. Será que estamos ficando obsoletos?

De verdade, acho que podemos ser mais úteis se pensarmos além das nossas utilidades. Olhar para a nossa finitude e para as nossas possibilidades. Podemos ser de muitas maneiras diferentes. Ser especial para nós mesmos e para outras pessoas. Olhar para dentro e entender o que nos alimenta a alma.

“Ser” no dicionário de sinônimos significa ter existência, tornar-se. Então fico aqui pensando que para nos descoisificarmos – se é que existe essa palavra – podemos viver de forma mais presente nossa existência, trazer mais significado para nossas relações e sentimento para nossas palavras e ações. Olhar para o que somos hoje e para o que queremos nos tornar nessa jornada de vida. Por enquanto, já estou satisfeita com a reflexão. Eu seria contraditória se terminasse dizendo que foi útil para mim?